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Johnny e June -
Comentários
de Theresa
Catharina
Johnny e
June
Theresa
Catharina
(*)
Acompanhar a
situação de
uma família
pobre, cujo
chefe é
alcoólatra e
até as
crianças
trabalham
duro nos
campos de
algodão,
além de
operar
máquinas de
manejo
inseguro, já
nos
sensibiliza
desde o
início para
compreender
os
sentimentos
de
frustração e
melancolia
do
personagem a
ser
retratado na
tela.
Ao amigo
Reynaldo
Domingos
Ferreira,
escritor,
dramaturgo e
jornalista,
reitero meus
agradecimentos
pelo envio
de seu
artigo, tão
abrangente,
e detalhado,
sobre o
filme
"Johnny e
June" (Walk
the line),
de James
Mangold
(EUA, 2005 -
136 min.).
Essa
cinebiografia
do astro da
música
country
americana
Johnny Cash
registra
momentos
tristes de
sua meninice
, o início
de sua
carreira e a
paixão por
June Carter.
Como sou
irremediavelmente
romântica,
acredito que
June amou
Johnny com
sinceridade,
mas,
consciente e
realista,
convivendo
com os
problemas
dele (álcool
e drogas),
trabalhando
e viajando a
seu lado,
hesitou ao
máximo antes
de aceitar,
em 1968, o
seu pedido
de casamento
(que,
repetido
inúmeras
vezes,
durante
anos,
recebia uma
resposta
negativa),
inclusive,
porque ela
já fora
casada duas
vezes, e
tinha a
responsabilidade
de criar
duas filhas.
No meu
entender,
June Carter
era prática,
sem vícios e
precisava
ser forte,
pragmática,
para
sobreviver
de forma
íntegra,
sustentando
a família.
Conviver tão
intimamente,
como esposa,
com um homem
viciado em
álcool e
drogas, e
com traumas
de infância
tão
profundos,
talvez lhe
parecesse
favorecer
uma eventual
ocorrência
de outras
tragédias
familiares,
para ambos,
além de
colocar sob
grande risco
o bem-estar
e a educação
das filhas,
exatamente a
sua maior
preocupação.
Como você,
Reynaldo,
também achei
ótima, como
expressão de
atitude
consciente,
vibrei com
aquela cena
dos pais de
June,
armados com
espingarda,
dizendo com
firmeza ao
traficante
ou vendedor
de drogas
(que chegou
à residência
recém-comprada
por Johnny,
à beira do
lago): "Leve
o seu veneno
para longe
daqui e
nunca mais
volte!"
De fato, a
recuperação
de Johnny só
foi possível
graças à
ajuda de
June e sua
família.
Sobre o
excelente
trabalho dos
intérpretes
principais,
já premiados
e
reconhecidos
pela crítica
especializada,
aproveito
para
reproduzir
aqui uma
explicação
de Reynaldo,
bem
didática,
qualificada
por seus
conhecimentos
como
diretor, no
que se
refere à
interpretação
cinematográfica:
"(...) no
cinema
americano,
como também
nos mais
desenvolvidos,
inclusive no
da
Argentina,
existe a
figura do
diretor de
atores.
Assim, no
caso do
Joaquin
Phoenix, ele
cria o
personagem
em
concordância
com o
diretor de
atores, que
define a
linha de
interpretação
adequada ao
tom da
narrativa
que a
direção quer
imprimir ao
filme para
todo o
elenco. Se,
por exemplo,
o tom da
narrativa
seguir uma
linha
expressionista,
como no caso
de Matrix, o
diretor de
atores tem
de orientar
os
intérpretes
a seguir os
métodos de
composição
expressionista,
que não são
naturais. O
cinema
brasileiro
ainda é tão
primário que
desconhece a
figura do
diretor de
atores,
razão pela
qual nossos
filmes não
têm bom
padrão de
interpretação.
A direção
tem a ver
com a
composição
de cena,
isto é, com
a
movimentação
dos atores
pelo set de
filmagem,
pelas
tomadas,etc.,
mas não
necessariamente
com a linha
interpretativa
dos atores,
como
acontece no
teatro. São
poucos os
diretores,
no cinema,
que se dão à
tarefa de
dispensar o
diretor de
atores. Um
caso
clássico era
o Visconti,
que não só
dirigia o
filme, mas
também
cuidava
meticulosamente
da
interpretação
dos seus
atores, pois
viera do
teatro.
Havia
diferença
grande, por
isso, do
Alain Delon,
dirigido por
Visconti e o
Alain Delon
de outros
filmes.
Também o
Helmut
Berger. No
caso do
Joaquin
Phoenix e da
Reese
Whiterspoon
percebe-se
que, além da
convivência
que ambos
tiveram com
os
personagens
retratados
antes de
morrerem,
houve também
um trabalho
sério de
composição
no sentido
de que as
nuanças por
eles
absorvidas
da realidade
se
adequassem à
linha da
direção.
Phoenix, ao
que se
percebe, é
um ator
muito
disciplinado,
preocupado
com as
marcações de
cena do
diretor,
talvez mais
obediente a
ele que
Reese. Esta
é muito
preocupada
com a
composição
do
personagem,
mas, é um
tanto quanto
desobediente
em relação
às marcações
de cena,
passando a
impressão às
vezes de
achar-se um
tanto
deslocada em
determinadas
sequências.
De qualquer
forma,
porém, o
filme se
valoriza
muito pelo
trabalho
deles como
intérpretes."
(Reynaldo
Domingos
Ferreira)
O roteiro de
"Johnny e
June",
bastante
criticado
por
Reynaldo,
também não
me agradou,
em alguns
aspectos; no
entanto,
talvez tenha
contribuído,
ainda assim
, apesar dos
defeitos,
para
ressaltar
que os
protagonistas
enfrentaram
o desafio de
interpretar
papéis muito
difíceis...e
saíram
vencedores.
Em "Johnny e
June", os
intérpretes
principais
precisaram
atuar, além
de tocar
instrumentos,
"dançando"
(a
movimentação
no palco, ao
se
apresentarem)
e cantando
eles mesmos
- (sem
dublês!)-
uma tarefa
exigente,
realizada
com
eficiência e
talento,
elogiada
pelos
jornalistas
estrangeiros,
especializados
em cinema,
que
premiaram
Joaquin
Phoenix e
Reese
Witherspoon
com o Globo
de Ouro,
sendo ambos
indicados
para o
Oscar. Ela
ganhou,
igualmente,
o Bafta,
premiação
máxima do
cinema
britânico à
qual Joaquin
Phoenix
também foi
indicado!
Minha
percepção do
filme
"Johnny e
June" foi a
de uma
comovente
história de
vida,
marcada pelo
amor,
trabalho
constante e
superação.
Aquela casa
do lago não
teria
atrativo
algum para
quem não
amasse o
dono e se
dedicasse a
ser a sua
companheira...
Achei o
comentário
de Reynaldo
um tanto
implacável
em sua
análise
humana da
personagem
June Carter
Cash, que o
garoto
Johnny ouvia
com
admiração,
já se
apresentando
nas
emissoras de
rádio,
quando ela
ainda era
uma menina.
A todos que
me
perguntam,
confirmo ter
assistido
com muita
emoção ao
belo e
pungente
drama
"Johnny e
June", ao
qual dei
nota dez,
sem hesitar,
inclusive
pela
admirável
performance
de Joaquin
Phoenix,
acompanhada
quase no
mesmo nível
de
excelência
por Reese
Witherspoon.
Outras
pessoas,
talvez bem
mais
exigentes do
que eu, no
quesito
"forma " (
eu sempre
privilegio o
conteúdo...apesar
de também
valorizar as
qualidades
técnicas ),
também se
disseram
entusiasmadas
com o filme.
A vida do
casal de
artistas
continuou
produtiva e
plena de
realizações,
décadas
depois dos
anos
relembrados
em " Johnny
e June ".
(ver os
sites
www.johnnycash.com
e
www.ringoffirethemusical.com
)
Após 35 anos
de
casamento,
June morreu,
em 15 de
maio de
2003, aos
73,
exatamente
na fase de
pré-produção
do filme.
Menos de
quatro meses
depois,
morreu
Johnny, aos
71 anos,
sendo
enterrado ao
lado da
esposa e
companheira
de trabalho.
Deixaram
órfãos, além
de seis
filhas das
uniões
anteriores,
seu único
filho homem,
John Carter
Cash,
nascido em
1970.
A biografia
completa do
casal revela
o quanto
ambos
sofreram e
lutaram
juntos.
Cantaram com
vigor todas
as
incompreensões,
dores e
rejeições
que
experimentaram
durante a
sua
conturbada
existência.
Nem o
sucesso nem
o amor
chegaram a
eles como
algo fácil.
As suas
realizações
mostram que
não viveram
em vão todos
esses
sofrimentos
físicos e
emocionais
do
cotidiano,
todos os
conflitos
que
experimentaram,
lado a lado,
ao longo de
muitos anos.
(*)
Theresa
Catharina de
Góes Campos,
jornalista,
escritora e
professora
universitária |