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LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO: O ROMANCE POLICIAL!

De: LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO <luizaccardoso@gmail.com>
Date: sex., 21 de nov. de 2025
Subject: policial
O ROMANCE POLICIAL!
Que me perdoem os amantes da literatura, mas os
romances policiais continuam, por cerca de sete
anos, a preencherem minhas noites. Não os leio
durante o dia. Não sei bem o motivo. Talvez para
não ser interrompida. E adoro ter a leitura como
entretenimento enquanto o sono insiste em não
aparecer. E o mais interessante é que, após a
quantidade relativamente significativa de livros
que leio, são dois por semana, as histórias
permanecem sempre instigantes. Não se repetem em
seu enredo.
Umberto Eco em uma de suas crônicas aborda o
assunto. Refere-se a certo espanto dos
intelectuais amigos do estudioso americano
Bernard Benstock, quando após sua morte, sua
esposa fez a doação de uma coleção de setecentos
livros policiais do esposo. “Na semana passada,
enquanto se homenageava o benfeitor, muitos se
perguntavam por que tantos pensadores, críticos
e estudiosos em geral, cultivavam uma paixão
pelo romance policial.” Eco explica que uma das
razões é metafísica: quem foi, qual foi a causa
disso. Questão colocada pelos pré-socráticos e
que nunca deixamos de abordar. Esclarecendo o
autor que a demonstração da existência de Deus
em São Tomás é uma obra prima de investigação
policial. Por outro lado, explica, a causa
última, “o motor oculto de todos os movimentos”
não se encontra fora do alcance do leitor. Ele
está dentro do romance policial. Que nos dá,
segundo ele, a consolação que a metafísica nos
nega. (Pape Satan Aleppe- Crônicas de uma
sociedade líquida, Umberto Eco, Rio de Janeiro,
2017).
A segunda razão, segundo Eco, é científica, uma
vez que os processos de investigação
apresentados nos romances policiais possuem
afinidade com os métodos de pesquisa nas
ciências naturais. Por fim, diz ele, há uma
razão literária, pois cada texto exige que,
idealmente, seja lido duas vezes: “...uma para
saber o que diz e outra para apreciar como o diz
(e daí a plenitude do gosto estético).” E, de
fato, quando lemos Jo Nesbo, John Grisham,
Harlan Coben, Kay Follet, entre outros, é um
prazer acompanhar o processo investigativo,
assim como se deliciar com a forma da narrativa.
Eco termina sua crônica afirmando: “Uma
experiência de leitura que diverte e ao mesmo
tempo oferece uma consolação metafísica, um
convite à pesquisa e um modelo de investigação
para obras de mistério bem mais insondável, é
certamente um bom auxílio na Missão do Sábio”
Enfim, nos sete anos de leitura, os livros
policiais continuam sendo uma grande fonte de
satisfação. Mensalmente compro alguns, para não
ter de reler os antigos. Meu encontro com outro
tipo de literatura, a clássica, somente se
realiza porque faço parte de dois grupos de
Leitura. Não fora isto ...Por outro lado, talvez
ainda hoje exista um preconceito contra os
romances policiais, como se fosse um tipo menor
de literatura. Como aliás acontecia nos
primórdios de sua existência. Quando começaram a
aparecer na Inglaterra e se expandiram com a
criação em Londres da Delegacia voltada para a
solução de crimes. Segundo informa P.D. James,
uma famosa escritora de romance policial da
época. No entanto, dificilmente esta ideia
negativa persiste para quem lê policiais. Eles
são bem escritos, nos fornecem uma boa ideia da
época em que a história se passa e nos instiga
pelas questões que coloca. E mais, nos impele a
estar atento aos detalhes, às especificidades de
cada situação e às reações dos envolvidos. O que
nos aproxima um pouco mais da realidade.
Lembremos Sherlock. Ele entrou em um quarto no
qual em uma cadeira jazia um homem morto.
Observa o ambiente e explica: o assassino é de
uma tribo de anões pelo pequeno tamanho. O que
ele deduz pela abertura da claraboia. Mas,
esclarece, ele saiu pela janela dadas as marcas
no parapeito. E assassinou o morto com um veneno
colocado em uma seta, pois havia uma pequena
perfuração no pescoço e o falecido estava em uma
certa posição e com secreção na boca. Ao estudar
o terreno embaixo da janela, do lado de fora,
continua: o assassino tem um pé torto e fugiu em
uma carroça com uma das rodas com problema, como
aparece nas pegadas e marcas dos pneus. Não
seria interessante termos este tipo de
observação? Quantos aborrecimentos evitaríamos?
Como nos relacionaríamos melhor com os outros,
nossos desejos e expectativas? Não seria mais
objetiva nossa visão de mundo? Nos romances
atuais, o detetive conta com a colaboração de
uma equipe especializada. O encanto, no entanto,
continua. Pois estamos sempre diante do
mistério. (11/2025/luiza) |
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