Theresa Catharina de Góes Campos

 

 

 
Hamnet, A Vida Antes de Hamlet



De: Reynaldo Domingos Ferreira <reydferreira@gmail.com>
Date: ter., 20 de jan. de 2026
Subject: A Propósito de Hamnet, A Vida Antes de Hamlet

A PROPÓSITO DE “ HAMNET, A VIDA ANTES DE HAMLET “

Se vivo ainda fosse, William Shakespeare (1564-1616) - existem suposições até de que ele nunca existiu - repreenderia, a meu ver, os realizadores do filme “ Hamnet, A Vida Antes de Hamlet “, de Chloe Zhao, detentor de um Globo de Ouro, deste ano, repetindo uma de suas mais lapidares afirmativas:

“ Os filhos espirituais são mais importantes do que os carnais.”

O que isso quer dizer?
- Quer dizer que ele dava mais importância à sua genial obra literária - 37 peças, 154 sonetos, três poemas narrativos e inúmeros poemas avulsos -, do que aos filhos, que teve, com sua esposa Anne ( não Agnes, como a personagem do filme ), aos quais ele deixou, em Stratford -Upon-Avon, mudando-se para Londres, para se realizar, como se realizou, com sua maior paixão, que era o teatro.

Chegando a Londres, Shakespeare, que usava brincos, nas orelhas, como os rapazinhos de hoje, logo tornou-se amante de um nobre inglês - a quem dedicou seus primeiros doze sonetos - o qual financiou as primeiras montagens de suas peças, quase todas comédias, como “ Muito Barulho, Por Nada”, “ As Alegres Comadres de Windsor”, “ Sonhos de Uma Noite de Verão”, “ O Mercador de Veneza “, e outras.

Só depois de se tornar conhecido, na Capital do Reino Unido, é que Shakespeare se atreveu a montar suas tragédias - sem ordem cronológica -, como “ Romeu e Julieta”, inspirada em fatos reais , ocorridos, em Verona, na Itália, na época, mas que ganharam repercussão, em quase todos os países europeus, quando dois jovens se suicidaram, pois não conseguiram vencer o ódio que havia, entre suas duas famílias, vizinhas, denominadas, na peça, de os Montecchio e os Capuleto.

Seguiram-se outras, como “Hamlet”, “ Macbeth “, “ Ricardo III “, “ Otelo “, “ Júlio César “, todas elas baseadas em relatos históricos. Mas ao que consta, diferentemente do que ocorreu, posteriormente, na França, onde Moliére (1622- 1673) gostava de interpretar os principais personagens, de suas peças, como “ O Burguês Fidalgo “, nem sempre, ou quase nunca, Shakespeare se dispunha a representar seus personagens, ao contrário do que mostra o filme, ele interpretando, numa ridícula encenação, o fantasma do pai de Hamlet.

É justamente nessa sequência que, a meu ver, os realizadores do filme mais demonstram seus parcos conhecimentos da arte cênica porque, na época de Shakespeare, o Teatro Globo, onde ele encenava suas peças, tinha a formatação do teatro elizabetano, ou seja, uma arena, como se fora um circo , mais um espaço, fechado, na parte traseira, que acabaria por dar origem ao teatro de caixa, que prevalece até hoje.

É, portanto, um equívoco do filme mostrar a encenação do “ Hamlet “, em um teatro de caixa, - a cujo palco Agnes, lamurienta, se debruça, lembrando-se do filho Hamnet, morto, aos onze anos, vítima de uma epidemia.

Nada autoriza, da mesma forma, a meu ver, o ator irlandês Paul Mescal a dar um tom choroso, em sua interpretação do grande poeta e dramaturgo, que só voltou a Stratford-Upon-Avon para morrer, na casa que o viu nascer, a qual se situa numa das principais ruas da cidade - o pai dele era um rico mercador -, de vários acanhados cômodos, onde lá estive, em 1982, levado por um casal amigo, ele também jornalista, que, na época, residia, em Londres, como correspondente de um jornal brasileiro.

Ao percorrer todos aqueles cômodos, ocupados por manequins de cera, caracterizados como os principais personagens das obras de Shakespeare, eu parecia ouvir deles as falas mais conhecidas.

Assim, de Romeu, na cena do balcão, reconstituída, eu o ouvia dizer:
"- Despreze o seu nome, Oh, amada Julieta! “;
de Ricardo III, no desespero, antes de se afundar na lama, eu parecia ouvir seus alucinantes gritos:
" - Meu reino, meu reino, por um cavalo! “;
de Hamlet:
- “ Ser, ou não ser, eis a questão! "
E - “ O resto é silêncio!…”;
de Ophelia, eu ouvia o canto triste, ao ser levada às profundezas das águas de um rio;
do judeu Shailock, cobrando o dinheiro, que lhe deve, o arruinado mercador Antônio, de Veneza:
- “ Ou paga, ou morre!… “
E de Marco Antônio:
- “ Meus amigos, romanos, ouçam-me, por favor, eu aqui venho para enterrar Júlio César, que foi sempre leal e sincero para comigo. Mas Brutus - o filho adotivo de César, que o abateu, com três punhaladas, pelas costas - é um homem honrado !… “

Então, pela leitura da obra de Shakespeare, tem-se a impressão de que, por mais que sofresse - como é o destino de todos nós -, ele jamais se deixava abater, mantendo o espírito forte, e dando, ao mesmo tempo, aos que o leem - sua obra é, cada vez, mais atual - também força para enfrentar as incertezas desta vida.
Reynaldo Domingos Ferreira-BsB 2026
 
 

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