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LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO: CHUVAS E TROVÕES

De: LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO <luizaccardoso@gmail.com>
Date: qua., 28 de jan. de 2026
Subject: chuvas
CHUVAS E TROVÕES
Uma tarde assustadora. Uma série implacável de
trovões e depois a chuva intensa que caía.
Trovões que arrebentavam quase dentro do quarto,
tal o nível do barulho. Quem já andou pelas
periferias da vida e da cidade, quem por
profissão adentrou pequenas casas de taipa ou de
folhas de coqueiro, quem de uma forma bem
próxima conheceu a realidade dos que nada têm,
fica a pensar. Sim, porque pedaços de madeirite
ou papelão não conseguem proteger as famílias
que vivem dentro destes barracos. Eles são
colocados para tapar algum buraco que ficou na
parede. Mas não evitarão pingos de chuva ou a
água entrando com mais força dentro de casa. E,
portanto, chegando perto da família, das
crianças. Que aliás, não terão, provavelmente,
um cobertor mais grosso que os proteja do frio.
A verdade é que esta pobreza, esta forma
miserável de viver, existe distribuída neste
país de tanta abundância. E de uma grande
desigualdade social. Segundo a Oxfam os 12
indivíduos mais ricos do planeta “concentram
mais patrimônio do que a metade mais pobre da
população mundial, cerca de 4 bilhões de
habitantes”. (Carta Capital (28/01/26). Segundo
a World Inequality Report – 2022 no Brasil, os
10% mais ricos concentram 59% da renda nacional.
Os 50% mais pobres ficam com 10% da renda do
país. Enquanto nos EUA aos 10% mais ricos
corresponde 45% da renda nacional. E na China,
42%. A renda per capita dos 10% mais ricos é 30
vezes maior do que a dos 50% mais pobres.
No entanto, de que forma vemos esta dura
realidade dos números sobre a desigualdade no
Brasil? Qual o nível de nosso comprometimento ou
alienação? E na pergunta cabe apenas a
necessidade de questionamentos. Nunca de
julgamento, pois a cada um sua medida e sua
vida. E nem sempre fomos acostumados a olhar com
mais do que curiosidade para a realidade dos
mais pobres. Certamente é muito difícil, com a
quantidade de estímulos que nos cercam, encarar
os mais pobres como próximos de nós, e a quem
somos fraternalmente ligados pela própria
condição do gênero humano. Compreensão dos
nossos semelhantes. Dos que compartilham como
nós a vida neste planeta, embora em condições de
vida muito diversas das nossas.
Como diz Conceição Evaristo em seu poema “Ao
escrever”: “Ao escrever a fome/com as palmas das
mãos vazias/quando o buraco -estômago/expele
famélicos desejos/há neste demente movimento / o
sonho esperança/ de alguma migalha de alimento/
Ao escrever o frio/ com a ponta de meus ossos/ e
tendo no corpo o tremor/da dor e do desabrigo,/
há neste tenso movimento/ o calor da esperança/
de alguma mísera veste./ Ao escrever a dor,/
sozinha,/ buscando a ressonância/ do outro em
mim/ há neste constante movimento/ a ilusão -
esperança / da dupla sonância nossa/ Ao escrever
a vida/ no tubo de ensaio da partida/ esmaecida
nadando, /há neste inútil movimento/ a enganosa-
esperança/ de laçar o tempo / e afagar o
eterno.” Do livro Poemas da Recordação.
(01/2026/luiza) |
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