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A viagem da Quaresma é um êxodo da escravidão
para a liberdade _ (2021) PAPA FRANCISCO
"A viagem da Quaresma é um êxodo: é um êxodo da
escravidão para a liberdade.
São quarenta dias que recordam os quarenta anos
em que o povo de Deus caminhou pelo deserto para
voltar à terra de origem.
Mas, como foi difícil deixar o Egito!
Mais difícil do que deixar a terra foi tirar o
Egito do coração do povo de Deus, aquele Egito
que traziam dentro…
É muito difícil deixar o Egito!
Ao longo do caminho, nos seus lamentos, sempre
se sentiam tentados pelas cebolas, tentados a
voltar para trás, presos às memórias do passado,
a qualquer ídolo.
O mesmo se passa conosco: a viagem de regresso a
Deus vê-se dificultada pelos nossos apegos
doentios, impedida pelos laços sedutores dos
vícios, pelas falsas seguranças do dinheiro e da
ostentação, pela lamúria que paralisa.
Para caminhar, é preciso desmascarar estas
ilusões.
Interroguemo-nos então: Como avançar no caminho
para Deus?
Ajudam-nos as viagens de regresso narradas pela
Palavra de Deus.
Olhamos para o filho pródigo e compreendemos que
é tempo também para nós de regressar ao Pai.
Como aquele filho, também nós esquecemos o ar de
casa, dilapidamos bens preciosos em troca de
coisas sem valor e ficamos com as mãos vazias e
o coração insatisfeito.
Caímos: somos filhos que caem continuamente,
somos como criancinhas que tentam andar, mas
estatelam-se no chão precisando uma vez e outra
de ser levantadas pelo papai. É o perdão do Pai
que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a
Confissão, é o primeiro passo da nossa viagem de
regresso.
Ao dizer Confissão, recomendo aos confessores:
Sede como o pai, não com o chicote, mas com o
abraço.
Depois precisamos de regressar a Jesus, fazer
como aquele leproso curado que voltou para Lhe
agradecer.
Curados foram dez, mas só ele foi também salvo,
porque voltara para Jesus (cf. Lc 17, 12-19).
Todos, todos nós temos enfermidades espirituais:
sozinhos, não podemos curá-las; todos temos
vícios arraigados: sozinhos, não podemos
extirpá-los; todos temos medos que nos
paralisam: sozinhos, não podemos vencê-los.
Precisamos de imitar aquele leproso, que voltou
para Jesus e se prostrou aos seus pés. Temos
necessidade da cura de Jesus, precisamos de
colocar diante d’Ele as nossas feridas e
dizer-Lhe: «Jesus, estou aqui diante de Vós, com
o meu pecado, com as minhas misérias. Vós sois o
médico; podeis libertar-me. Curai o meu
coração».
Mais ainda!
A palavra de Deus pede-nos para regressar ao
Pai, pede-nos para voltar a Jesus, e somos
chamados também a regressar ao Espírito Santo.
As cinzas na cabeça lembram-nos que somos pó e
em pó nos havemos de tornar. Mas, sobre este pó
que somos nós, Deus soprou o seu Espírito de
vida. Então não podemos viver seguindo o pó,
indo atrás de coisas que hoje existem e amanhã
desaparecem.
Voltemos ao Espírito, Doador de vida!
Voltemos ao Fogo que faz ressurgir as nossas
cinzas, àquele Fogo que nos ensina a amar.
Continuaremos sempre a ser pó, mas – como diz um
hino litúrgico – pó enamorado. Voltemos a rezar
ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do
louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da
resignação.
Irmãos e irmãs, esta nossa viagem de regresso a
Deus só é possível, porque houve a sua vinda até
junto de nós. Caso contrário, não teria sido
possível.
Antes de irmos até Ele, desceu Ele até nós.
Precedeu-nos, veio ao nosso encontro. Por nós,
desceu até mais fundo de quanto pudéssemos
imaginar: fez-Se pecado, fez-Se morte.
Isto mesmo no-lo recordou São Paulo: «Aquele que
não havia conhecido o pecado, Deus O fez pecado
por nós» (2 Cor 5, 21).
Para não nos deixar sozinhos e acompanhar-nos no
caminho, Ele desceu dentro do nosso pecado e da
nossa morte. Tocou o pecado, tocou a nossa
morte.
Então a nossa viagem é deixar-se tomar pela mão.
O Pai que nos chama a voltar é Aquele que sai de
casa e vem procurar-nos; o Senhor que nos cura é
Aquele que Se deixou ferir na cruz; o Espírito
que nos faz mudar de vida é Aquele que sopra com
força e suavidade sobre o nosso pó.
Daí a súplica do Apóstolo: «Deixai-vos
reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20). Deixai-vos
reconciliar: o caminho não se apoia nas nossas
forças; com as próprias forças, ninguém pode
reconciliar-se com Deus; não consegue.
A conversão do coração, com os gestos e práticas
que a exprimem, só é possível se partir do
primado da ação de Deus. O que nos faz regressar
a Ele não são as nossas capacidades nem os
méritos que ostentamos, mas a sua graça que
temos de acolher.
Salva-nos a graça. A salvação é pura graça, pura
gratuidade.
Disse-o claramente Jesus no Evangelho: o que nos
torna justos não é a justiça que praticamos
diante dos homens, mas a relação sincera com o
Pai.
O início do regresso a Deus é reconhecermo-nos
necessitados d’Ele, necessitados de
misericórdia, necessitados da sua graça. O
caminho certo é este: o caminho da humildade.
Como me sinto eu: necessitado ou
autossuficiente?
Na quarta feira do início da Quaresma inclinamos
a cabeça para receber as cinzas.
Ao final da Quaresma, abaixar-nos-emos ainda
mais para lavar os pés dos irmãos.
A Quaresma é uma descida humilde dentro de nós e
rumo aos outros. É compreender que a salvação
não é uma escalada para a glória, mas um
abaixamento por amor.
É fazer-nos humildes.
Neste caminho, para não perder o rumo,
coloquemo-nos diante da cruz de Jesus: é a
cátedra silenciosa de Deus.
Contemplemos cada dia as suas chagas, as chagas
que Ele levou para o Céu e todos os dias, na sua
oração de intercessão, faz ver ao Pai.
Contemplemos cada dia as Suas chagas. Naqueles
buracos, reconheçamos o nosso vazio, as nossas
faltas, as feridas do pecado, os golpes que nos
fizeram sofrer. E, contudo, mesmo ali, vemos que
Deus não aponta o dedo contra nós, mas abre-nos
os braços.
As Suas chagas estão abertas para nós e, por
aquelas chagas, fomos curados (cf. 1 Ped 2, 24;
Is 53, 5).
Beijemo-las e compreenderemos que precisamente
lá, nos buracos mais dolorosos da vida, Deus nos
espera com a Sua infinita misericórdia. Porque
ali, onde somos mais vulneráveis, onde mais nos
envergonhamos, Ele veio ao nosso encontro. E
agora que veio ter conosco, convida-nos a
regressar a Ele, para voltarmos a encontrar a
alegria de ser amados.
Homilia Papa Francisco. Quarta-Feira de Cinzas -
Fevereiro 2021. |
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