“Os mitos não
pertencem apenas ao passado; são espelhos da
alma humana.”
Renata Peluso
Por que a mulher, mesmo
desempenhando bem os papéis que a vida lhe
confiou, por vezes não se sente plena? Onde
reside a verdadeira realização da natureza
feminina? A mitologia grega, por meio de seus
símbolos, oferece caminhos para compreender essa
questão ao apresentar modelos arquetípicos
representados pelas deusas.
Ao abordar a mitologia, é
necessário superar a ideia de que o mito é uma
narrativa fantasiosa. Os mitos são estruturas
simbólicas profundas que expressam realidades
humanas universais. A simbologia revela que a
vida não se limita à lógica racional; muitas
experiências parecem ilógicas, mas ganham
significado quando interpretadas simbolicamente.
A vida manifesta-se por desafios,
perdas e encontros que convidam ao
desenvolvimento das virtudes. Da mesma forma, os
mitos expressam verdades por imagens simbólicas.
Platão recorria a eles quando reconhecia que
certas realidades ultrapassam os limites da
argumentação racional.
Ao tratar do feminino na
mitologia, não falamos apenas da mulher, mas de
um arquétipo presente em todos os seres humanos.
O feminino frequentemente simboliza a psique, a
alma que anima e impulsiona. Os gregos
compreendiam o ser humano em três dimensões:
soma (corpo), psique (alma) e nous (espírito).
Entre essas instâncias surge uma tensão: podemos
viver orientados apenas por impulsos materiais
ou elevar-nos por valores mais altos e
permanentes.
Nos mitos e contos simbólicos, o
feminino representa essa alma diante de
escolhas: elevar-se ao espírito ou ceder ao
instinto. Essa dinâmica aparece em diversas
narrativas, sempre retratando a mesma
encruzilhada interior: optar pelo passageiro ou
pelo eterno.
A mitologia grega apresenta
quatro arquétipos femininos associados às etapas
da vida.
Afrodite simboliza o aprendizado
do amor, especialmente na juventude. Seu
significado vai além da sensualidade; representa
a capacidade de amar de forma elevada. Quando
distorcida, reduz-se ao narcisismo; quando
integrada, desperta a arte do amor verdadeiro.
Atena representa discernimento e
sabedoria. Deusa da estratégia, simboliza a
batalha interior contra os impulsos
desordenados. Nascida da cabeça de Zeus,
expressa inteligência e clareza. Seu símbolo, a
oliveira, lembra que é preciso extrair a
essência para produzir o azeite capaz de gerar
luz se ficar em contato com o fogo.
Deméter corresponde à maturidade
produtiva. Deusa da fertilidade, ensina que é
preciso cultivar para colher. Representa o
cuidado, a responsabilidade e o compromisso com
o coletivo. A vida ganha sentido quando
ultrapassamos interesses pessoais e contribuímos
para o bem comum.
Hera simboliza consolidação e
dignidade. Senhora do Olimpo, representa
fidelidade e força compartilhada. Seu símbolo, o
pavão, sugere a multiplicidade de potenciais que
se manifestam quando a maturidade é alcançada.
Esses arquétipos não são papéis
sociais, mas referências interiores. Uma mulher
pode cumprir todas as expectativas externas e
ainda sentir vazio se não tiver despertado sua
essência arquetípica. A questão central do
feminino contemporâneo não é o excesso de
funções, mas a busca de identidade interior.
Estudar mitologia filosoficamente
é resgatar o sentido dos símbolos. Os mitos não
pertencem apenas ao passado; são espelhos da
alma humana. Ao compreendê-los, compreendemos
melhor a nós mesmos e encontramos, nas antigas
deusas, caminhos para a realização interior.
Renata
Peluso
Aluna e professora da Nova
Acrópole
Lago Norte/Brasília-DF
Vídeo: Deusas
Gregas: os arquétipos femininos: Por
que a mulher, mesmo desempenhando bem todos os
papéis que a vida lhe outorgou, às vezes não se
sente plena e feliz? Qual é a verdadeira
realização da natureza feminina? A mitologia
grega e seus símbolos nos ajudam a compreender a
real natureza feminina através dos modelos
representados pelas Deusas. A professora Renata
Peluso comenta os arquétipos representados por 4
deusas do panteão Olímpico: Afrodite, Atenas,
Deméter e Hera, em sua palestra proferida na
Nova Acrópole em Brasília. Nova Acrópole é uma
organização filosófica presente em mais de 50
países há 54 anos, e tem por objetivo
desenvolver em cada ser humano aquilo que tem de
melhor, por meio da Filosofia, da Cultura e do
Voluntariado.
Filme: Antônia,
uma sinfonia:Baseado
em uma história real, retrata a vida de Antônia
Brico, a primeira maestrina a se tornar regente
da Orquestra Filarmônica de Nova York.
Música:Rimsky-Korsakov:
Scheherazade op.35 - Leif Segerstam - Sinfónica
de Galicia:Scheherazade"
(Op. 35) — Nikolai Rimsky-Korsakov Inspirada em
"As Mil e Uma Noites", a figura da mulher
(Scheherazade) é representada por um violino
solo incrivelmente sedutor e expressivo. A
música retrata a beleza da mente, da sabedoria e
da resiliência feminina. O violino mostra como a
inteligência e a fala de uma mulher (seu saber
reunir argumentos e saber falar) conseguem
acalmar a brutalidade e encantar o mundo.
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