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LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO:
A VIDA E SEUS LIMITES
Gilberto Gil está no palco, no ano de 2010, ao
lado de um dos maiores sanfoneiros do Brasil. A
música fala “Por ser lá do sertão/ lá do
cerrado”. Uma linda melodia que afirma estar na
cidade contrariado. Aqueles dois, cada um
completando a interpretação do outro e se
olhando, enquanto nos deliciávamos com os
acordes da sanfona e a voz de Gil. Como estão
agora? Como estavam na época? O futuro era visto
com esperança? Sem os dramas que podem ocorrer?
É assim que vemos o nosso futuro? Com grandes
expectativas? Acompanhar a trajetória das
pessoas que nos sensibilizam, observar a nossa
própria trajetória nos leva a inquietudes,
murchas expectativas, uma certa angústia. Pois
nada sabemos do que ainda vamos viver.
Circunstâncias de vida mudam tão profundamente,
impossibilidades costumam aparecer sem avisar,
limites nos são dados mais estreitos do que
gostaríamos. E então, a vida se faz limitada,
com desalentado horizonte.
Estar preparados é condição com a qual não
deveríamos transigir. No entanto, muitas vezes
deixamos as oportunidades de aprender passarem
sem retorno.
Desprezamos as ocasiões nas quais poderíamos
compreender melhor o que nos cerca. E ignoramos
o que nos poderia fazer bem e nos levar para a
frente. Os motivos pelos quais isto pode
acontecer devem ser muitos, porém um deles é
certamente o quanto podemos nos distrair em
relação à vida. O quanto nos dedicamos ao
trivial, ao que nos dá prazer, ao tempo que
costumamos empregar em coisas de menor
importância.
Assim, nossos planos têm de prever o
imprevisível. Precisamos nos dedicar a olhar o
futuro com nossas melhores expectativas, mas
igualmente preparados para identificarmos os
entraves, as dificuldades e os problemas que
podem aparecer. Não podemos simplesmente nos
deitarmos em berço mais ou menos esplêndido e
esquecermos que a realidade é diferente do que
idealizamos ou prevemos.
Assim nos lembra o Soneto de Aniversário de
Vinicius de Moraes.” Passam-se dias, horas,
meses, anos/ Amadureçam as ilusões da vida/
Prossiga ela sempre dividida/ Entre compensações
e desenganos/ Faça-se a carne mais envilecida/
Diminuam os bens, cresçam os danos/Vença o ideal
de andar caminhos planos/ Melhor que levar tudo
de vencida/ Queira antes ventura que aventura/ À
medida que a têmpera embranquece/ e fica tenra a
fibra que era dura. / E eu direi: amiga minha,
esquece.../Que grande é este amor meu de
criatura/ Que vê envelhecer e não envelhece.”
(03/2026/luiza) |
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