Theresa Catharina de Góes Campos

 

 

 
LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO:

A VIDA E SEUS LIMITES

Gilberto Gil está no palco, no ano de 2010, ao lado de um dos maiores sanfoneiros do Brasil. A música fala “Por ser lá do sertão/ lá do cerrado”. Uma linda melodia que afirma estar na cidade contrariado. Aqueles dois, cada um completando a interpretação do outro e se olhando, enquanto nos deliciávamos com os acordes da sanfona e a voz de Gil. Como estão agora? Como estavam na época? O futuro era visto com esperança? Sem os dramas que podem ocorrer?

É assim que vemos o nosso futuro? Com grandes expectativas? Acompanhar a trajetória das pessoas que nos sensibilizam, observar a nossa própria trajetória nos leva a inquietudes, murchas expectativas, uma certa angústia. Pois nada sabemos do que ainda vamos viver. Circunstâncias de vida mudam tão profundamente, impossibilidades costumam aparecer sem avisar, limites nos são dados mais estreitos do que gostaríamos. E então, a vida se faz limitada, com desalentado horizonte.

Estar preparados é condição com a qual não deveríamos transigir. No entanto, muitas vezes deixamos as oportunidades de aprender passarem sem retorno.

Desprezamos as ocasiões nas quais poderíamos compreender melhor o que nos cerca. E ignoramos o que nos poderia fazer bem e nos levar para a frente. Os motivos pelos quais isto pode acontecer devem ser muitos, porém um deles é certamente o quanto podemos nos distrair em relação à vida. O quanto nos dedicamos ao trivial, ao que nos dá prazer, ao tempo que costumamos empregar em coisas de menor importância.

Assim, nossos planos têm de prever o imprevisível. Precisamos nos dedicar a olhar o futuro com nossas melhores expectativas, mas igualmente preparados para identificarmos os entraves, as dificuldades e os problemas que podem aparecer. Não podemos simplesmente nos deitarmos em berço mais ou menos esplêndido e esquecermos que a realidade é diferente do que idealizamos ou prevemos.

Assim nos lembra o Soneto de Aniversário de Vinicius de Moraes.” Passam-se dias, horas, meses, anos/ Amadureçam as ilusões da vida/ Prossiga ela sempre dividida/ Entre compensações e desenganos/ Faça-se a carne mais envilecida/ Diminuam os bens, cresçam os danos/Vença o ideal de andar caminhos planos/ Melhor que levar tudo de vencida/ Queira antes ventura que aventura/ À medida que a têmpera embranquece/ e fica tenra a fibra que era dura. / E eu direi: amiga minha, esquece.../Que grande é este amor meu de criatura/ Que vê envelhecer e não envelhece.” (03/2026/luiza)
 

Jornalismo com ética e solidariedade.