Theresa Catharina de Góes Campos

 

 

 
LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO: A DIFICULDADE DE AMAR




De: LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO <luizaccardoso@gmail.com>
Date: qua., 15 de abr. de 2026
Subject: amar


Ele não sabia como ou o que fazer. A briga fora feia. Ele não se controlara como deveria, dissera coisas indevidas, ofendera e ela reagira prontamente. Com vigor. À altura das ofensas que recebera. Embora tenha começado a discussão, ela não esperava do companheiro uma reação tão contundente. Achara que ia ser como sempre - ele meio contido, com medo de falar demais e, de certa forma, tímido diante das atitudes dela. Que não tinha limites e falava o que queria e da forma como queria.

Ana Maria não guardava maiores cuidados em suas desavenças. Por este motivo, ficava cada vez mais difícil fazer as pazes. Retornar ao relacionamento. As duras palavras trocadas, as farpas, as acusações formavam uma espécie de muro de contenção que os colocava ao lado um do outro, mas distantes. Psicologicamente distantes. O tempo é que se encarregava de aproximá-los com maior intimidade e eles gozavam um período de relaxamento e prazer. Até a próxima briga. E por que brigavam? Eram jovens, mas com pensamentos completamente diferentes. Ele gostava da tranquilidade, de ficar em casa, namorando, conversando, aproveitando o estar juntos. Ela, ao contrário, detestava permanecer em casa todos os dias e a todo tempo. Queria mais era assistir aos shows que estavam acontecendo, passear, ver coisas e gente, jantar fora com frequência. Então, algumas vezes eles se concediam satisfazer um ao outro em seus desejos, mas, às vezes a tensão crescia.

Eles queriam ignorá-la, porém ela estava lá, maciça, presente em sua inquietude, perpassando falas e sentimentos. E, por mais que desejassem, era impossível afastá-la. Afinal, era de desejos que se tratava. E a juventude não se dedica muito a questioná-los, avaliá-los e vivê-los sem que prejudiquem o cotidiano. O afeto que sentiam um pelo outro, portanto, não era capaz de suprir o esforço que faziam para satisfazer os desejos de quietude de um lado e a necessidade de viver diversas coisas pelo outro.

Certamente, muitas vezes é difícil vencer os obstáculos que aparecem no amor. Como diferentes objetivos de vida, desejos diversos, o silêncio sobre a realidade mais íntima de cada um. Na grande maioria dos casos convivem em certo desequilíbrio, um desconhecimento mais profundo do Outro, uma falta de disposição para compreender plenamente o tipo de relação em que se envolveram ou a ausência de questionamentos sobre os próprios sentimentos. Assim, as insatisfações crescem aos poucos até formarem um desapreço na manutenção do afeto que une. Descobrem defeitos facilmente, se aborrecem com pouco, não têm limites no que dizem um ao outro.

O amor é um mistério que nos envolve e do qual não sabemos muito. É bom quando o encontramos, vivenciando a ternura e a atenção que ele nos proporciona. Quando nossa alma se abandona ao afeto, ao mesmo tempo que mantém a disposição para estar presente e ativa. Aproveitando todas as benesses que traz o momento mágico de estar com o outro. Mas o amor não é só isto. Ele é complexo. Feito de diferentes diapasões. Com as características de afetos carregados de insegurança pessoal; de inquietudes, de desejos de diferentes intensidade e substância. Podendo ser inteiro, enlouquecedor, confrontador. E, em sua mais intima face, ter um gosto pela liberdade - que incomoda, confronta, estimula viagens para longe. Na contradição de amar.

“Maior amor nem mais estranho existe/ Que o meu, que não sossega a coisa amada/ E quando a sente alegre, fica triste/ E se a vê descontente, dá risada/E que só fica em paz se lhe resiste/ O amado coração, e que se agrada/ Mais da eterna aventura em que persiste / Que de uma vida mal-aventurada. / Louco amor meu, que quando toca, fere /E quando fere vibra, mas prefere/ Ferir a fenecer – e viver a esmo/ Fiel à sua lei de cada instante/ Desassombrado, doído, delirante/ Numa paixão de tudo e de si mesmo.” Do Soneto do Maior Amor de Vinícius de Moraes. (03/2026/luiza)
 

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