“No Universo está
a resposta para o grande enigma que é o ser
humano. Temos, simplesmente, que aprender a
lê-lo.”
Jorge Angel
Livraga
Há uma pergunta que nunca
consegui deixar de me fazer: o que a Terra
sente quando se queimam suas árvores? Se o
planeta pudesse se expressar, como nos faria
chegar a sua dor? Por mais ridículo que
pareça, se os seres humanos variam de um
lugar a outro em suas linguagens e formas de
expressão, por que a Terra não deveria ter
algum sistema próprio que pudesse ser
compreendido pelos mais intuitivos e com
mais discernimento?
Se partirmos da base de que
apenas os seres humanos estão
conscientemente vivos, as perguntas
anteriores não têm sentido. A Terra não
seria mais que uma bem acondicionada rocha
girando em sua órbita ao redor do Sol. Mas
não posso evitar a lembrança de tantos
filósofos antigos que souberam apresentar,
com propriedade e clareza, seus pensamentos
sobre a vida universal, que diz respeito a
tudo que existe, embora se apresente sob as
mais variadas formas. De acordo com isso, a
Terra vive, tem seus ciclos de saúde e
enfermidade, de tranquilidade e insegurança…
Em sua própria escala, ela se alegra e sofre
como nós.
Não há provas disso? O que
importa? Durante séculos, não tivemos provas
das verdades científicas hoje aceitas e
apoiadas em complexos cálculos. Tampouco
faltaram aqueles que deixaram suas vidas
tentando demonstrar verdades que intuíram,
embora, à época, não tivessem meios precisos
para fundamentá-las.
Seja como for, se nós, em
nossa pequenez e, por que não, em nossa
ignorância, nos sentimos impressionados
pelos choques de cometas interestelares e
pelos incêndios monumentais, como pensar que
os mais diretamente afetados estão fora do
alcance desta projeção vital?
A Terra chora…
Os homens se reúnem de tempos
em tempos para estudar o estado da Terra.
Realizam-se encontros mundiais aos quais
comparecem cientistas, especialistas em meio
ambiente, presidentes e enviados especiais
de quase todas as nações, jornalistas,
interessados e curiosos. Todos concordam
com a deterioração cada vez mais evidente
que a Terra apresenta, mas é quase
impossível concordarem em soluções práticas
e imediatas. Como sempre acontece nestes
casos, os discursos são mais importantes do
que os fatos e gasta-se muito mais dinheiro
em viagens, hotéis, recepções e impressos do
que em medidas concretas diante de situações
tão dramáticas.
A Terra está doente; o clima,
enlouquecido; aumentam as secas e
inundações, assim como a fome e a poluição.
Plantas e espécies animais desaparecem e a
aparência do nosso planeta envelhece
diariamente de maneira brusca e
incontrolável.
Mas os interesses criados são
superiores a esses efeitos malignos que já
não passam despercebidos para ninguém. As
lutas políticas e os dividendos econômicos
das indústrias têm mais peso do que a saúde
da Terra e de todos os seus habitantes.
Aqueles que assim atuam, relegando as
soluções para um amanhã incerto, fazem-nos
recordar a expressão “depois de mim, o
dilúvio”. O que equivale a dizer que pouco
importa o que acontecerá aos nossos filhos e
netos.
O que nunca se leva em
consideração é a sabedoria ancestral dos
povos antigos, que proclamavam que a Terra é
um ser vivo, inteligente, mais evoluído do
que os homens, que nos suporta em sua
superfície, e que tem um destino próprio que
nada nem ninguém pode alterar. É fácil agir
impunemente diante de um planeta que parece
não reivindicar nada, é difícil reagir a um
Ser inteligente que de repente pode nos
cobrar por tantos desastres cometidos.
Hoje a Terra chora, e sofre
pelos homens que a ignoram e a maltratam.
Ela expressa seu choro com centenas de
sintomas que deveriam ser mais do que
suficientes para chamar nossa atenção.
Mas o orgulho fecha nossos
olhos e nos cega com a ilusão de que o que
importa é o que nos acontece.
Ainda teremos tempo de
aprender a ver e saber fazer? Se a Vida é
Una, é Una para todos. Virão mais adiante as
tão apreciadas demonstrações. Hoje nos resta
o espanto, a dor, a impotência, a maravilha
de viver neste mundo infinito do qual mal
conseguimos compreender um grãozinho de
poeira e ao qual, pelo visto, pouco podemos
ajudar, por mais que nossos desejos de
alento voem muito mais longe do que nossas
mentes.
Artigo escrito por Délia
Steinberg Guzmán
Ex-presidente da Organização
Internacional Nova Acrópole