Theresa Catharina de Góes Campos

 
APELOS DE INTERNET
Tereza Halliday – Artesã de Textos

São muitos os anjos da guarda de minha saúde, prazer estético e conscientização política. Agem através de e-mails com anexos. Certa remetente implora: “Por favor, não delete, é lindo demais!” Um outro adverte: “É um pouco longo, mas vale a pena”. Murcho ante esses apelos. Se preciso penar para baixa o arquivo, deixa de valer a dita pena. A propósito: ainda não me convenci de que vale a pena investir horas preciosas em redes sociais. Mas posso mudar de ideia.

Circula na Internet uma mensagem lembrando que e-mails, com ou sem anexos, são atos de amor ou cordialidade. Significam “lembrei-me de você, gosto de você, quero que você tenha acesso a isto que acho importante”: beleza em texto, música, imagem; informação vital, alerta, denúncia, piada. Eu mesma sou repassadora de e-mails, porque feita do mesmo barro onde se entranham o desejo e o prazer de compartilhar algo que nos comove, faz rir ou ensina alguma coisa. Mas nunca repasso mensagens cheias de raiva contra políticos de qualquer partido ou posição. Poupo meus amigos de serem plateia da terapia do saco de pancadas virtual contra as vergonhas da política nacional. Os raivosos de plantão desconhecem o jeito mineiro de discordar e chegar aonde querem.

Não consigo sensibilizar-me com vários outros tipos de apelos de Internet: mensagens insinuando que, se eu não repassar, não tenho coração, ou não dou importância a Deus, ou não amo meu país. Também resisto às ondas de solidariedade interneteira. Já tenho sofrimentos demais na minha esquina, bairro, cidade - ao vivo e em cores sombrias. Sei que somos todos parte da mesma teia de vida, irmãos residentes do mesmo planeta. Mas o sofrimento no Haiti, Irã, Somália, Síria não é mais degradante nem mais pungente do que o encontrado aqui onde moro: fome, violência, frio, doença, degradação debaixo da ponte, à beira do mangue, na penitenciária, hospitais, transportes coletivos. Entre os necessitados que encontram padrinhos na Internet e os que me estão mais próximos, dou prioridade a estes: gente conhecida a carecer de ajuda para comprar medicamentos, pagar uma taxa de inscrição, soerguer uma parede caída ou a auto-estima.

Outra coisa: jamais assino qualquer abaixo-assinado por Internet, não importa quão justa e nobre a causa. Tampouco repasso mensagens que prometem alguma coisa surpreendente na tela, ao fim do repasse, ou na minha vida, dentro de três dias. Apesar do besteirol a demandar triagem e da labuta incessante administrando e-mails de queridíssimos amigos, amados parentes, estimados conhecidos e gente que nunca vi mais gorda, algumas dessas mensagens reduzem minha ignorância ou aumentam minha taxa de serotonina. Benditos mensageiros de e-mail, que alargam meu mundo, fazem-me rir ou me trazem enlevo. (Diário de Pernambuco, 13/2/2012, P.C-5)

Tereza Lúcia Halliday, Ph.D.
Artesã de Textos
 

Jornalismo com ética e solidariedade.