Theresa Catharina de Góes Campos

  De: Tereza Lúcia Halliday
Data: 22 de setembro de 2013 21:40
Assunto: Artigo quinzenal 23/9/2013 - Rebeldia Pacífica

REBELDIA PACÍFICA

Tereza Halliday – Artesã de Textos

Desde mocinha que resisto a fazer certas coisas “como todo mundo”.
Também sofro de conformismo, em certos momentos ou assuntos. Mas me
apraz fazer diferente, desde que não fira a lei nem faça mal a
ninguém. Não quero ser induzida, pressionada, impelida a certo
comportamento comunicativo somente porque é moda ou costume.
No dia 7 de setembro de 2013, dei pequeno grito de independência.
Independência das telinhas e telonas. E tive um feriado
maravilhosamente calmo e centrado, rico de atividades, silêncio,
convivência. Não ouvi nem vi noticiários, nem cenas do desfile
militar, nem reportagens, ao vivo, dos protestos. Mas sabia que, na
minha cidade, haveria o Grito dos Excluídos, a pedalada dos ciclistas
nus e a caminhada de diversos grupos em prol ou contra isto ou aquilo.
Sinais de que estamos numa democracia, por mais destrambelhada que
seja. Ex-ciclista, ainda de olho comprido para as magrelas, até que
me apeteceria o protesto sobre duas rodas, com ou sem roupa. Mas
multidão não é a minha praia, nem mesmo na praia.

Não vi na TV nem online os cartazes espirituosos, nem as cenas de
vandalismo, nem a inabilidade da polícia para lidar com protestadores
pacíficos, ou briguentos mascarados e descarados. Não me agitei com os
comentários de repórteres, cumprindo sua missão informativa, mas
também opinando pela imagem e pelo tom da voz. Li, no jornal, de
véspera, o que ia acontecer. Li, no jornal do dia seguinte, tudo o que
aconteceu. E mais os comentários deste ou daquele entendido nas
implicações políticas, econômicas, psicológicas e sociológicas dos
eventos e suas entrelinhas. Noticiário de TV e Internet não tem de
fazer parte da minha dieta diária. É item de consumo ocasional.
Fiquei por dentro de tudo, mas sem overdose de adrenalina, tão
incentivada pela mídia eletrônica. Bem que o médico de minha tia
desaconselha a ver telejornais. Fazem mal aos nervos e à alma, com sua
intensidade e rapidez de fala, imagem e som, podendo até causar
dependência. “Mas você não tem curiosidade?” perguntam alguns,
atônitos. Naquele feriado, matei a curiosidade toda pelo jornal, no
meu passo de leitura, sem interrupção de propagandas que fazem de
tudo para envolver-me nalgum ato de compra e distrair-me de pensar
sobre as notícias. Como leitora de jornais e revistas comando o
processo de adquirir informação. Ora contristada pelos erros de
Português que jornalistas não devem cometer, ora deleitada quando
encontro um bom texto, claro, conciso, elegante, capaz de ajudar-me a
entender o que se passa.

Minha preferência pela palavra escrita em papel parece anacrônica.
Afinal de contas, texto, nesta década do século XXI, é para ser lido
em telinhas de i-pads, i-phones e quejandos. Mas, enquanto as mídias
tradicionais e as mais modernas conviverem, quero Internet e quero
jornal de papel. E celebrarei cada dia como o Dia da Independência de
não fazer como todo mundo. Pequena felicidade que não tem preço.
(Diário de Pernambuco, 23/9/2013)

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"Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada.
(Accioly Neto)
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Avexar-se - forma popular nordestina de vexar-se: apressar-se. afligir-se.

 

Jornalismo com ética e solidariedade.