Theresa Catharina de Góes Campos

     
Palavras que borbulham como refrigerante
 

Animê une cores vibrantes, discos de vinil e haicais

 

Haicaístas:

 

Palavras que borbulham como refrigerante retrata o romance de dois adolescentes que floresce à sombra das redes sociais, 

em meio a poemas haicai e à nostalgia dos discos de vinil, tudo tingido por uma paleta de cores quentes de verão. 

O filme de animação japonês (animê), lançado em 2021 e dirigido por Ishiguro Kyôhei, faz parte do catálogo da Netflix.

 

 

 

Trailer oficial: https://youtu.be/Sfu6cplThgQ

 

 

  1. Um romance para todas as gerações
  2. O rap do haicai
  3. Explosão de vida (contém spoilers)
  4. Dezessete verões (contém spoilers)
  5. A dança das cerejeiras (contém spoilers)
  6. Ficha técnica

 

 

  1. Um romance para todas as gerações

 

O verão chegou na fictícia cidade de Oda, quando as férias escolares asseguram tempo livre aos jovens. Reproduzindo uma realidade tão comum aos nossos dias, o ambiente seguro e agradavelmente climatizado de um moderno shopping center é onde todos vão procurar lazer nos dias de calor. Com toda a comodidade, ali está concentrada uma gama de serviços indispensáveis à vida moderna. Há até mesmo um centro de cuidados em esquema day care, para onde os familiares levam e trazem diariamente seus idosos, liberando-se para o trabalho. É um serviço cada vez mais frequente de se ver. Muitas pessoas aqui no Brasil acabam usando a denominação creche para idosos, na analogia com as creches infantis.

Lá trabalha Cherry (Cerejinha, na versão brasileira), um rapaz introvertido de 17 anos, fazendo um bico de meio período como cuidador. O idoso ao qual se sente mais ligado é Fujiyama. Ambos compartilham o interesse pelo haicai, forma poética tradicional de dezessete sílabas fundamentada no diálogo com a natureza.

Apesar do ponto em comum, seus diálogos nem sempre são frutíferos, pois Fujiyama é surdo e se comunica aos gritos. Isso é algo que Cherry não suporta. Os fones de ouvido que usa em todo lugar não tocam nenhuma música, servindo apenas para abafar o ruído exterior e inibir a aproximação de estranhos. É terrivelmente envergonhado para falar em público. Além de dois ou três amigos, sua única janela para o mundo é a rede social onde publica seus poemas. Apesar de tanta inibição, ele anseia por reconhecimento, mas admite, embaraçado, que a única pessoa a dar “like” assiduamente em seus haicais é a própria mãe.

Em outra ala do shopping existe um consultório odontológico onde encontramos Smile (Sorrisinho, na versão brasileira. Ela está fazendo a manutenção periódica do aparelho que usa para corrigir seus incisivos projetados para a frente, como os da Mônica. Ao contrário de Cherry, Smile é luminosa e desinibida, especialmente em suas lives (transmissões ao vivo) na mesma rede social de Cherry, acompanhadas por milhares de seguidores. É o que se chama atualmente de influenciadora digital. Entretanto, Smile tem vergonha de seus dentes e de seu aparelho, permanentemente escondidos por uma máscara cirúrgica.

Mesmo no Japão pré-pandêmico, esconder o rosto atrás de uma máscara era uma atitude relativamente comum. Alega-se resfriado ou alergia, quando na verdade não houve tempo de fazer a maquiagem ou simplesmente se deseja privacidade. Para Smile, a máscara representa um momento de baixa autoestima. A adolescência é uma fase de mudanças bruscas, tanto físicas quanto mentais. É normal que isso traga uma sensação de inadequação do próprio corpo. É o caso de Smile, que até há pouco tempo achava kawaii (fofos) os seus dentes saltados e agora os esconde envergonhada.

Esses dois adolescentes tão diferentes terão a chance de se conhecerem. Como dois nativos digitais, usarão as ferramentas que têm, literalmente, ao alcance das mãos. Através de seus celulares, começam por curtir as postagens um do outro. Não demora para que apertem juntos o botão “seguir”, uma ação cheia de simbolismo que delimita a fronteira entre a amizade e algo mais.

Mas antes que o romance prospere, cada um precisará enfrentar seus fantasmas: Cherry tem dificuldade em dar voz aos seus sentimentos, acreditando mesmo que isso não é necessário, como numa ocasião em que tentou justificar que seus haicais se bastavam como arte escrita, dispensando a declamação em público. Por outro lado, a expansiva Smile precisa aceitar a sua aparência e perceber que pode ser amada do jeito que é, sem a necessidade de se esconder.

Enquanto isso, Cherry e Smile conectam-se com o velho Fujiyama. Eles descobrem que a capa vazia obsessivamente carregada pelo idoso continha um disco gravado por sua esposa, falecida há meio século. Por anos, a única coisa que Fujiyama fez na vida foi tentar resgatar esse disco para ouvi-lo pelo menos mais uma vez antes de morrer. Um dos momentos mais tocantes do filme é ouvir Fujiyama relatar aos jovens que, apesar de ter sido o disco que mais ouviu na vida, até mesmo essa memória querida desapareceu com o tempo. É quase em tom de súplica que o idoso murmura: “não quero esquecer, mas não me lembro”. A velhice cobra o preço de desfalcar beleza e vitalidade, mas o que pode ser mais cruel do que levar até mesmo a memória, justamente aquilo que nos define e dá sentido à vida?

O filme é, assim, um tratado sobre conexões. Enquanto sozinhos, os protagonistas são inseguros e se fecham nas redes sociais. No momento em que se conectam, um elogia no outro justamente aquilo que se acreditava ser uma fraqueza e assim ganham confiança para crescer. Outra conexão ocorre com os idosos do centro de cuidados, especialmente com Fujiyama. Por causa dela, os jovens conhecem novas realidades, saem em busca da tradição e da história de sua cidade e mergulham no mundo nostálgico dos discos de vinil. Terão assim a oportunidade de resgatar uma história de amor de meio século atrás e nela se refletirem.

Por fim, uma conexão importante que perpassa o filme é a do dinamismo das lives e tuítes das redes sociais se combinando harmoniosamente com a contemplativa tradição do haicai e o lento passo da dança de Daruma, ensaiada com afinco pelos idosos para sua apresentação no festival vindouro. Estamos falando de um filme dirigido à Geração Z, mas que ressalta a importância do cuidado com os mais velhos e com tudo o que se pode aprender com eles.

Este é o primeiro longa-metragem dirigido por Ishiguro Kyôhei, 41 anos, antes conhecido por séries como Your Lie in April e Occultic;Nine. O visual exuberante é traduzido por poucas sombras e silhuetas bem delineadas, preenchidas por uma paleta de cores quentes e chapadas. A luminosidade e a alegria da estação estão bem representadas.

Na verdade, há muita nostalgia envolvida. Muito do estilo do filme veio do gosto de Ishiguro,  pelas efervescentes capas desenhadas por Suzuki Eijin e Watase Seizô nos anos 1980 para álbuns do gênero city pop (que passou por um revival recente). Quanto à música, a principal canção do filme foi encomendada a Ônuki Taeko, compositora e cantora que iniciou a carreira nos anos 1970 e se ligou ao mesmo movimento musical. Essa atmosfera retrô temperada pela onipresença das redes sociais combina bem com a proposta de unir dois mundos separados pelo tempo.

A animação é fluida e expressiva, tanto nas cenas de ação quanto na linguagem corporal dos personagens, transmitindo veracidade e empatia dentro das convenções visuais consagradas do gênero. A riqueza de informações visuais é impressionante, a começar pelo shopping center, modelado em 3d a partir de um estabelecimento real, o Aeon Mall de Takasaki, da província de Gunma.

 

O detalhismo continua no centro de cuidados, onde cadeiras de rodas convivem com os computadores usados nas tarefas administrativas. Suas paredes são preenchidas por pôsteres coloridos, quadros de avisos e, ressaltando a importância do haicai para o centro e para o filme, diversos tanzaku (tiras de papel com poemas escritos), quadros com a caligrafia dos kigôs de verão e um enorme kakemono com um poema de Fujiyama. Na casa de Smile, o quarto onde ela convive com suas duas irmãs tem arquitetura de loft e decoração de sonho. Mesmo o modesto dormitório de Cherry é rico em detalhes, como o calendário com haicais de Bashô e Kyoshi e exemplares da revista Haiku, da editora Kadokawa.

 

  1. O rap do haicai

 

Uma das ideias mais interessantes deste filme foi o uso de haicais comentando ou dialogando com as cenas. Além disso, há o destaque dado à própria prática poética. É raro ver termos técnicos como kigô (termo de estação) e saijiki (dicionário de kigôs) serem pronunciados em filmes, o que pode ser conferido nas legendas em português (a versão dublada prefere outros caminhos). O personagem principal anda com um saijiki preso à capa do celular. O próprio título do filme em japonês é um haicai. Em entrevistas, o diretor Ishiguro Kyôhei afirma ter adotado o gênero após a leitura de um livro de diálogos entre o haicaísta Kaneko Tôta e o multiartista Itô Seikô (Tairyûjiai Haiku Nyûmon Shinken Shôbu, Ed. Kôdansha). Lá ele anotou a curiosa passagem “o haicai é o começo do hip-hop no Japão”.

Foi nesse momento que ocorreu o insight de Ishiguro: “Itô Seikô está entre os fundadores do rap [manifestação poético-musical da cultura hip-hop] japonês e tem uma percepção muito aguçada sobre o haicai. Sabendo que o haicai se conecta com o contexto musical do hip-hop, pensei: por que não incorporar o haicai como gênero musical?” Isso resultou na introdução de haicais fazendo parte ativa do enredo, além de serem usados como vinhetas e pano de fundo.


 

Inicialmente, o diretor percebeu que seria difícil para a sua equipe escrever com qualidade todos os haicais necessários. Mais importante que isso, era necessário que eles tivessem o sabor da poesia produzida por um estudante do ensino médio. Isso foi resolvido recorrendo a estudantes reais, todos creditados ao fim do filme (Coube ao poeta Kurose Karan, por sua vez, se encarregar dos haicais do idoso Fujiyama). A produção recebeu mais de cem haicais que exerceram muita influência no trabalho final. Como exemplo, o diretor cita a cena em que Cherry compõe o haicai “Falsa largada/ na hora do entardecer –/ Luzes de verão”, que Smile classifica como “fofo”. Essa reação ocorreu de verdade, durante um dos kukai (reunião para leitura de haicais), 

e foi incorporada ao roteiro.


 

Dessa maneira, os haicais pontuam organicamente o filme inteiro, sem parecerem forçados. Eles podem estar presentes diretamente no enredo, com sua leitura disparando comportamentos dos personagens, ou então como intertítulos, em que sua aparição incidental numa pichação comenta ou antecipa ações do enredo. Mesmo tendo estrutura tradicional, sua linguagem é compatível com o que se espera de um poeta adolescente, envolvido num mundo urbano e tecnológico. A disseminação dos 

poemas pelas redes sociais e através da arte de rua é outro aspecto que chama a contemporaneidade. A pequena extensão do haicai é perfeita tanto para um tuíte quanto para uma pichação. É óbvio que essa organicidade só pôde ser obtida encomendando-se haicais adequados ao roteiro pretendido, já que Cherry é um personagem fictício. Por outro lado, ao mostrar na prática como trabalha um haicaísta, o filme ganha autenticidade.

É interessante aprofundar a leitura de Ishiguro. Vimos que Itô Seikô disse ao haicaísta Kaneko Tôta: “O haicai é o começo do hip-hop no Japão”. Um aspecto do haicai japonês é sua dependência intertextual, seja através da citação de textos da tradição literária japonesa e chinesa, seja através dos kigôs, palavras de convenção compartilhadas por gerações de haicaístas de todos os tempos para cantar fenômenos ligados às quatro estações. Essa intertextualidade pode ser interpretada como uma amostragem, ou seja, guarda certa correlação com os samples ou empréstimos de trechos musicais.

Quanto à rima como a conhecemos, ou seja, a coincidência intencional de sons entre versos, essa não se desenvolveu na linguagem poética tradicional japonesa. O que Kaneko Tôta explicou é que o haicai é um poema com ritmo 5-7-5, onde se escolhem as palavras adequadas a esse ritmo. Cada palavra escolhida deixa sua própria impressão e essas impressões reverberam entre si, em ritmo. Essa reverberação particular pode ser poeticamente chamada de rima.

 

É assim que entendemos a declaração entusiasmada de Itô Seikô, que acrescentou: “O haicai tem rima e tem samples.

 É completamente hip-hop!”. Se o haicai tem a ver com o rap, talvez haja espaço para discussão. O fato é que, em um momento culminante do filme, acabamos presenciando algo que podemos identificar como um brilhante cruzamento do rap com o haicai.

 

 

 

Aviso de spoiler: A partir deste ponto, pode haver revelações importantes do enredo. Talvez seja preferível 

assistir o filme antes de prosseguir com a leitura.

 

  1. Explosão de vida

 

A seguir, repassaremos alguns dos haicais do filme com nossa versão para o português, lembrando que as versões apresentadas no filme são transcrições em prosa corrida feitas para atender às necessidades de legendagem e dublagem. Os kigôs estão grafados em itálico nas traduções.

 

O primeiro momento do filme é praticamente um cartão de visita: a visão de um típico prédio de conjunto residencial, onde uma pichação concorre com a hera que progressivamente avança sobre a parede. A pichação na verdade é um haicai que anuncia o endereço de Cherry, apelido do adolescente Yui Sakura:

 

aotsuta no danchi bokura wa san-maru-go

 

Aqui nós moramos –

Condomínio Hera Verde

trezentos e cinco.

 

Dentro do apartamento 305, vamos encontrar Cherry aprontando-se para o trabalho enquanto revisa em voz alta alguns de seus últimos poemas. Ele é cuidador em meio-período no centro para idosos situado no shopping center. A cena não deixa dúvidas: Cherry é um jovem haicaísta dedicado a anotar cada pequena cena do dia-a-dia de sua localidade. Ele não larga o celular, mas seus haicais têm métrica e kigô (palavras de estação). Eis um exemplo, 

inspirado pelos onipresentes campos alagados de arroz que cercam sua cidade:

 

sora tooshi aota no ue o tayutau hi

 

Bem longe no céu

Sobre os verdes arrozais

o sol cintilante.

 

Nenhuma criatura é pequena demais ou insignificante para a sua atenção:

 

amembo ga minamo ni nokosu hamon kana

 

Aranha-d’água –

Na superfície em que desliza

deixa ondulações.

 

Gente e natureza, tudo parece em harmonia neste lugar:

 

natsufuku ga tambo to haeru jimoto kana

 

Na minha cidade

As roupas de verão ornam

com os arrozais!

 

O verão está presente em todos os lugares. No céu, os cúmulos-nimbos fazem contraste perfeito contra o céu azul enquanto ouvem-se as cigarras ao fundo e os campos verdejantes de arroz estendem-se até o horizonte. Há ventiladores espalhados por todos os cantos e até mesmo os pratos preparados pelas donas de casa (melão amargo refogado e macarrão gelado) são típicos da estação.

 

ue o muku mono no oosa yo natsu kitaru

 

Voltadas para o alto

tantas coisas e pessoas!

verão chegou.

 

Os haicais que aparecem no filme são quase todos escritos por Cherry. Alguns poucos são de Fujiyama, um idoso frequentador do centro de cuidados com um grande conhecimento de haicai, que se torna um tipo de mentor para Cherry. Um haicai do idoso pode ser visto caligrafado num grande kakemono dependurado na parede da instituição:

 

hatsu ake ya oite koso jinsei bakuhatsu

 

Primeira manhã do ano –

A velhice, de verdade,

é explosão de vida!

 

É algo que não se espera da idade, talvez um incentivo aos frequentadores, talvez a filosofia de vida de Fujiyama. Ele é surdo, por isso às vezes se exprime aos berros, como ao declamar, de forma aparentemente aleatória, o seguinte haicai:

 

kanjô ya shônen umi yori agari keri

 

Com teus sentimentos

vai, levanta-te, meu jovem,

acima do mar!

 

Trata-se de um poema sem kigô de Settsu Yukihiko (1947-1996), em forma de chamamento, ao qual se reserva uma importante função posterior. “Nos haicais de Settsu há mistério e movimento, além de atribuir som às paisagens”, 

discorrem Cherry e Fujiyama sobre o autor.

 

  1. Dezessete verões

 

No verão, o shopping center está sempre lotado de famílias, para as quais são organizadas atividades de lazer, sendo uma delas uma graciosa corrida de bebês. A partir de estímulos adequados, espera-se que os pequenos engatinhem em direção à linha de chegada. Uma das crianças, pouco afeita à formalidade do sinal de partida, dispara na frente sob o olhar aflito da supervisora que grita em vão: “falsa largada!”, “falsa largada!”Cherry, que a tudo assiste, tem um estalo: pode ser a ideia para um novo haicai. Uma das graças do filme está em mostrar esses momentos da prática poética com os quais todo haicaísta vai se identificar. Seu primeiro ato é contar nos dedos as sílabas da expressão “falsa largada”. Seguro de que ela cabe em uma linha de haicai, confere sua existência no dicionário de kigôs (saijiki ou kiyose) que sempre carrega. Há muitos kigôs vivenciais, inclusive ligados a esportes. Por que não? Mas sua procura é bruscamente interrompida em consequência da confusão gerada pelo endiabrado amigo Beaver. Ao fugir da segurança do shopping, ele tromba com Cherry e também com Smile, que casualmente passava pelo local transmitindo mais uma live.

O par é lançado ao chão sem consequências mais graves do que o desprendimento da máscara de Smile, revelando a Cherry o que ela queria esconder do mundo. Com efeito, a primeira palavra, balbuciada pelo atordoado mas atento rapaz ao olhar para Smile, é “aparelho”. Percebendo sua intimidade exposta, Smile abandona o local em carreira desesperada. Cherry, ao contrário, levanta-se estoicamente e, esquecido de seu primeiro achado, passa a contar as sílabas da palavra “aparelho”, disposto a usar sua nova descoberta.

Ao fim do turno de trabalho, Cherry vai descansar com seus amigos Japan e Beaver. Inspirado pelo belo pôr do sol à sua frente, ele resolve compor algo com a palavra “entardecer”, mas nada lhe ocorre no momento. Beaver é um espevitado filho de decasséguis latino-americanos. Ele espera melhorar seu conhecimento de língua japonesa pichando os haicais de Cherry em cada parede vazia que encontrar. Os erros de troca de kanji (ideogramas) que comete involuntariamente são fonte de alívio cômico e ao mesmo tempo trarão a chave para conectar o passado e o presente do filme.

Em outro dia, vemos um grupo de idosos sendo conduzido para um passeio pelo shopping para compor haicais. É o ginkô, ou passeio poético, outra atividade típica dos haicaístas. Nisso, são orientados pela professora Miyuki, auxiliada por Cherry, que toma conta dos idosos. Ao fim da atividade, o grupo é reunido e a professora começa a ler em voz alta os haicais produzidos.  Inesperadamente, o tímido Cherry é instado a ler o próprio poema:

 

shoppingu mooru yûyake ni toketeyuku

 

Até o shopping center

vai se derretendo aos poucos –

Arrebol da tarde.

 

Mortificado pela vergonha, nosso herói ainda se recupera da leitura quando Fujiyama declama seu haicai. A presença de Smile, assistindo à reunião mal escondida por uma mureta de vidro, foi a fonte de inspiração:

 

semigoe ya masuku hazusenu shôjo ni mo

 

Canto da cigarra –

Mesmo a garota de máscara

consegue escutar.

 

É o começo da amizade entre Cherry e Smile, que resolvem voltar juntos para suas casas. Durante o caminho, Smile pergunta a Cherry se ele cria haicais com facilidade, ao que ele responde que sim, desde que esteja num dia bom. Estimulada pela resposta, Smile faz o pedido que todo haicaísta odeia: “Então tente fazer um [agora]!” De início embaraçado pela demanda, Cherry começa a juntar lentamente as peças de um quebra-cabeças: Primeiro, repara que, ao fim da tarde, as luzes da rua já se acenderam, talvez um pouco cedo demais. Em seguida, as lembranças de dias atrás sobre a corrida de bebês e a imagem do entardecer juntam-se em sua mente. 

O resultado é este haicai:

 

yûgure no furaingu meku natsu tomoshi

 

Falsa largada

Na hora do entardecer –

Luzes de verão.

 

Smile adora o resultado, que classifica de “fofo”, deixando Cherry um pouco perplexo. Também achamos “fofa” a atualização do significado de um kigô tradicional como “luzes de verão”. Enfim, a amizade cresce e vai se moldando em outro tipo de sentimento:

 

jû nana kai me no shichigatsu kimi to au

 

No décimo-sétimo

julho da minha vida

eu encontrei você.

 

Julho é verão no Japão. Dezessete verões Cherry já viu passar. Aos dezessete anos ele encontrou o amor. A convivência com uma pessoa diferente traz a necessidade de olhar o mundo sob novas perspectivas:

 

himawari ya kawaii no i o jisho ni kiku

 

Girassol --

Perguntei ao dicionário

o que significa “fofo”.

 

De novo, “fofo” é o paralelo entre a trajetória da flor o dia inteiro perseguindo o sol e a busca de Cherry por uma resposta. Ele não ignora que a personalidade luminosa e sincera de Smile esconde um segredo:

 

aoba yami riyu wo shiritai dake nanda

 

Sob as folhas verdes

uma grande escuridão –

Só quero o motivo.

 

No verão a folhagem torna-se densa e luxuriante a ponto de, às vezes, bloquear a luz do sol. Mas de seu lado, Cherry sabe que os sentimentos se acumulam no peito e precisam encontrar um caminho de saída. Então compõe o haicai que dá título ao filme: 

 

Saidaa no you ni kotoba ga wakiagaru

 

As minhas palavras

borbulham como se fossem

um refrigerante.

 

Saidaa é a pronúncia japonesa de cider ou cidra, bebida gaseificada à base de maçã. Após sua introdução no Japão da Era Meiji, passou a identificar todo tipo de bebida gaseificada não alcoólica, que nós chamamos de refrigerante.

 

  1. A dança das cerejeiras

 

A partir da metade do filme, a ação se transfere para a antiga loja de discos de Fujiyama. Da surrada capa de disco que o idoso carrega para todo lugar, cai uma velha filipeta com um haicai escrito pelo próprio:

 

sayônara wa iwanu mono nari sakura mau

 

Adeus é palavra

que não ouso pronunciar –

Dança a cerejeira.

 

É um poema que expressa a saudade de Fujiyama, mas que também ecoa em Cherry. Para ele está chegando a hora de dizer adeus, por causa de sua mudança iminente, mas falta-lhe coragem.

 

yû niji ya kimi ni iitai koto ga aru

 

Arco-íris da tarde –

Tem uma coisa que eu quero

dizer pra você.

 

O arco-íris é como um sinal que aparece para chamar a atenção ou funcionar como lembrete. Entretanto, todas as oportunidades que aparecem são perdidas por hesitação.

 

O título na capa do disco de Fujiyama é Yamazakura. É o nome de uma árvore e também um kigô de primavera. É composto das palavras yama [montanha] e sakura [cerejeira]. Cherry tem a oportunidade de ler sobre o assunto. As mundialmente famosas cerejeiras ornamentais são o resultado de séculos de manejo e cruzamentos conduzidos pelos jardineiros japoneses. Dos galhos nus nascem primeiro as flores, que caem e dão lugar às folhas. Já a yamazakura é uma árvore em estado nativo, em que as folhas novas brotam ao mesmo tempo que as flores. A tradição associou a folhagem precoce da yamazakura aos dentes projetados para a frente das pessoas dentuças. 

Assim, essas pessoas eram antigamente chamadas de yamazakura. A partir dessa informação, ele escreveu 

o seguinte haicai:

 

yamazakura kakushita sono ha boku wa suki

 

Yamazakura 

As folhas que você escondeu

eu gosto delas.

 

A palavra em japonês para folha(s) é ha. A palavra para dente(s) tem a mesma pronúncia: ha. Esse jogo de palavras, um tipo de kakekotoba, será escancarado nas pichações equivocadas de Beaver, que trocará uma palavra por outra, tornando mais evidentes os sentimentos de Cherry por Smile. Também é o caminho que conecta o amor de verão dos jovens com o amor primaveril de Fujiyama, vicejado meio século atrás, à sombra das yamazakura. Há anos Fujiyama busca pelo disco de sua falecida esposa, a única coisa que o fará recuperar a memória daquele amor e talvez agora, 

com a ajuda de Cherry e Smile, ele consiga reavê-lo.

 

Por puro acidente, Smile finalmente descobre que Cherry vai se mudar. Magoada pelo silêncio de Cherry, Smile lembra-o da promessa quebrada de verem juntos os fogos de artifício do Festival de Daruma, no exato dia da mudança. Smile se despede de Cherry, incapaz de lhe dirigir uma única palavra de volta:

 

raimei ya tsutaeru tame ni koso kotoba

 

Uma trovoada –

As palavras servem sim

para comunicar!

 

Chegou o dia da mudança e também do Festival de Daruma, auge do verão na pequena cidade. Enquanto todos esperam a queima de fogos na cobertura do shopping, a passagem do carro de Cherry ao lado do prédio, de saída da cidade, reaviva os velhos sentimentos. Basta um pequeno empurrão para que ele tome a coragem necessária. Os amigos estarão ao seu lado.

 

  1. Ficha técnica

 

Título: Palavras que borbulham como refrigerante/ Saidaa no yô ni kotoba ga wakiagaru

País: Japão

Lançamento: 2021

Duração: 87 minutos

Diretor: Ishiguro Kyôhei.

Roteiro original: Satô Dai e Ishiguro Kyôhei.

Design de personagens e direção de animação: Aikei Yukiko

Elenco (japonês/português):

Smile: Sugisaki Hana/ Jeane Marie

Cherry: Ichikawa Somegorô/ Rafael Schubert

Fujiyama: Yamadera Kôichi/ Ricardo Rossato

Distribuição: Netflix

 

Abraços,

 Edson Kenji Iura

kakinet@gmail.com

www.kakinet.com

 

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